INTRODUÇÃO À ÉTICA: PRINCÍPIOS, TEORIAS E FUNDAMENTOS

A palavra "ética", do grego ethos, significa, em termos gerais, aquilo que pertence ao "bom costume", "costume superior", ou "portador de caráter". Ela se encarrega de refletir acerca dos princípios universais, valores e ações que acreditamos e que são imutáveis, independentemente de nossa cultura. Embora a distinção entre ética e moral não seja atualmente relevante, há algumas diferenças mínimas: enquanto a moral se fundamenta na obediência a costumes e hábitos em função da interpretação cultural dos princípios e valores, a ética busca refletir universalmente sobre os mesmos. Em suma, na filosofia clássica, a ética não se resumia à moral, mas buscava a fundamentação teórica para encontrar o melhor modo de viver e conviver, isto é, a busca do melhor estilo de vida, tanto na esfera privada quanto pública. De modo que nos fique clara a definição dos conceitos que utilizaremos ao longo do artigo, segue abaixo um esquema:

Objetividade: Aquilo que constitui uma verdade independentemente da mente humana (opiniões, emoções, gostos ou preferências pessoais). Exemplos: 1+1=2; A lei da gravidade;

Subjetividade: Aquilo que é dependente da mente humana (opiniões, emoções, gostos ou preferências pessoais). Exemplos: Questões ligadas ao gosto, como achar que o café tenha ou não um sabor agradável, são relativas a cada pessoa e, por isso, são subjetivas;

Ética: Princípio universal e invariável que busca a reflexão dos valores que motivam, distorcem, disciplinam ou orientam o comportamento humano;

Juízo: Faculdade de avaliar; julgar; ponderar; corrigir e discernir;

Valor moral: Substrato da moralidade e objeto de reflexão da ética; serve como parâmetro para todo e qualquer sistema moral ou ação pessoal. Exemplos: justiça; dignidade; honra, etc;

Moral: Reunião de inferências e interpretações socioculturais acerca dos valores morais reunidas em um conjunto que denominamos moralidade;

Intuição: Forma de contato direto e imediato da mente com a realidade; capacidade de captar sua essência de modo evidente, sem demonstração ou dedução lógica;

Experiência moral: Comumente, os filósofos, ao refletirem sobre nossa experiência moral, não veem razões para desconfiar dessa experiência mais do que veem para a experiência dos nossos cinco sentidos. Acredito naquilo que meus cinco sentidos me dizem, ou seja, que existe um mundo de objetos físicos à minha volta. Meus sentidos não são infalíveis, mas isso não me leva a pensar que não haja um mundo exterior à minha volta. Do mesmo modo, na ausência de alguma razão para desconfiar de minha experiência moral, devo aceitar o que ela me diz, isto é, que algumas coisas são objetivamente boas ou más, certas ou erradas.

DEFINIÇÃO

Atualmente, é comum que a ética seja definida como "a área da filosofia que se ocupa do estudo das normas morais nas sociedades humanas" e busca explicar e justificar os costumes de um determinado agrupamento humano, bem como fornecer subsídios para a solução de seus dilemas mais comuns. Neste sentido, ética pode ser definida como a ciência que estuda a conduta humana e a moral é a qualidade culturalmente expressa desta conduta. Todavia, faz-se necessário clarificar que a ética não deve ser confundida com lei ou regras morais, embora com certa frequência a lei tenha como base princípios éticos. Ao contrário do que ocorre com a lei, nenhum indivíduo pode ser compelido, pelo Estado ou por outra instância, a cumprir as normas éticas, nem sofrer qualquer sanção pela desobediência a estas; por outro lado, a lei pode ser omissa quanto a questões abrangidas no escopo da ética.

Um exemplo prático que pode nos ajudar a entender o porquê da necessidade de distinção entre ética e lei, segue: imagine um indivíduo dentro de um ônibus lotado que segue rumo a um destino distante. O mesmo indivíduo ocupa um lugar reservado às gestantes. Enquanto o ônibus segue o trajeto, uma gestante encontra-se de pé ao lado do assento reservado ocupado pelo sujeito em questão. Ora, intuitivamente, podemos conceber como antiético o fato de ocupar-se um lugar exclusivo ao passo que se deixa uma gestante de pé durante toda a viagem. Todavia, tal ação não é ilegal e, obviamente, não comporta penalidades afins, como o cárcere ou a pena de morte. Trata-se apenas de um ato antiético cuja constatação parte de condenações baseadas em nossos juízos de valor.

CAMPOS E DIVISÕES DA ÉTICA

O estudo da ética dentro da filosofia divide-se, atualmente, em alguns sub-ramos que se encarregam de trabalhar com distintas vias filosóficas. Essa divisão ocorreu principalmente após o advento da filosofia analítica, no século XX, em contraste com a filosofia continental ou com a tradição filosófica grega. As referidas subdivisões são:

Metaética: levanta questões sobre a teoria da significação e da referencia dos termos e proposições morais e como seus valores de verdade podem ser determinados, fundamentados e sustentados;

Ética normativa: encarrega-se de refletir sobre os meios práticos de se determinar as ações morais; teorias do dever; referente ao certo e errado ou bom ou mau; normas de conduta; como as pessoas devem agir e se comportar;

Ética aplicada: sobre como a moral é aplicada em situações específicas; aborto; eutanásia; pena de morte; direito dos animais;

Ética descritiva: também conhecida como ética comparativa, é o estudo das visões, descrições e crenças que se tem acerca da moral; comparação de interpretações culturais acerca dos valores (sistemas morais);

Ética Moral: trata-se de uma reflexão sobre o valor das ações sociais consideradas tanto no âmbito coletivo como no âmbito individual; síntese da disciplina ética; reflexão sobre deveres e valores morais;

Deste modo, a ética abrange os campos que atualmente são denominados antropologia, psicologia, sociologia, economia, pedagogia, política e todas as esferas do conhecimento humano. Em suma, os campos estão direta ou indiretamente ligados ao que influi na maneira de viver do homem. Dentre os campos citados acima, dois se destacam nas discussões filosóficas: a metaética e a ética normativa. Enquanto as éticas normativas se encarregam de formular questões como "O que alguém deve fazer?", a metaética formula questão como "O que é o bem?" ou "Como podemos dizer o que é bom e o que é mal?". Deste modo, procuramos entender a natureza das propriedades e avaliações dos enunciados éticos. Ora, é justamente nas considerações metafísicas sobre a moral que se encontra a chave de toda a questão, haja vista que a condição ontológica precede quaisquer teorias morais e tomada de decisões acerca da moral prática. Em suma, devemos verificar os fundamentos dos juízos morais antes de realizá-los, no intuito de atestar sua validade. De modo que possamos trabalhar a questão, devemos nos fazer duas perguntas:

1- Qual a natureza dos juízos morais?

2- Como os juízos morais podem ser apoiados e defendidos?

A primeira indagação diz respeito à objetividade ou subjetividade dos juízos e valores morais. Já a segunda questão, diz respeito a como nós podemos saber que algo é certo ou errado. Como podemos observar, as respostas destas duas perguntas, embora pertencentes a duas esferas distintas da filosofia (ontologia e epistemologia, respectivamente) são indissociáveis. Em outras palavras, a resposta de uma implica fortemente a resposta de outra. Não obstante, outras perguntas podem ser feitas, tais como "O que é o bem e o mal" ou ainda "o que é moral e imoral". Tais questões pertencem, respectivamente, à semântica (linguística moral) e à definição de moralidade. De modo que evitemos a confusão entre os termos da teoria moral, segue uma ilustração retirada do domínio Reasonable Faith que nos ajuda a compreender as divisões da metaética e da ética aplicada:



À luz da figura explicativa, é possível definir o campo em que fazemos uma determinada afirmação. A título de exemplo, quando dizemos que os valores morais são fundamentados em Deus, estamos, na verdade, fazendo uma afirmação metaética sobre ontologia moral. Do mesmo modo, quando nos perguntamos como conhecemos ou aprendemos os valores morais, estamos fazendo uma afirmação sobre epistemologia moral. Por fim, quando nos perguntamos sobre o que é o bem ou o mal, estamos fazendo uma afirmação sobre semântica moral, isto é, uma questão puramente linguística. A confusão entre os termos é comum até mesmo entre filósofos treinados, portanto, faz-se necessária a observância da relação entre as afirmações e a instância filosófica.

TEORIA MORAL

Em sua recente tese de doutorado sobre o argumento moral (Ohio State University, 2009), Matthew Jordan lista as seguintes propriedades, reveladas por um exame de nossa experiência moral, que devem caracterizar qualquer teoria adequada do dever moral:

Objetividade: A verdade de uma proposição moral é independente das crenças de qualquer ser humano em particular ou comunidade humana;

Normatividade: considerações morais, como tal, constituem razões para agir;

Categoricidade: razões morais são razões para todos os seres humanos, independentemente de quais metas ou desejos que eles possam ter;

Autoridade: razões morais são razões especialmente importantes e devem ser emitidas por uma autoridade competente;

Cognoscibilidade: Em circunstâncias normais, os seres humanos adultos têm acesso epistêmico a considerações moralmente relevantes;

Unidade: Uma pessoa humana pode ter uma razão moral para agir, ou abster-se de agir, de maneiras que afetam ninguém menos que o agente que pratica o ato;

Como pudemos observar, qualquer teorização ética deve ser analisada sob a ótica de cada aspecto que pudemos observar no diagrama passado, isto é, um fundamento ontológico, uma teoria epistemológica, uma teoria semântica, a definição moral e todos os outros aspectos citados acima. Em conclusão, qualquer teoria que não possua essas propriedades não será uma teoria adequada do dever moral.

VISÕES METAÉTICAS: COGNITIVISMO VS NÃO COGNITIVISMO

Em diversos modos de aplicação, a ética acaba por nos conduzir a distintos e não-relacionados campos, incluindo a ciência, as teorias políticas, econômicas e sociais, bem como quaisquer outras abstrações da cognição humana. Do mesmo modo, as aplicações se voltam à estrutura da família, à sexualidade, e até mesmo o modo pelo qual a sociedade vê o papel dos indivíduos, arrolando teorias como o feminismo, o marxismo, o existencialismo sartreano e outras modos de se ressignificar o homem. Inicialmente, para se analisar uma determinada uma determinada visão ética, é necessário definir uma sentença ética, também conhecido como uma afirmativa normativa. Trata-se de um juízo positivo ou negativo (em termos morais) de alguma coisa. Sentenças éticas, por sua vez, são frases que usam palavras como bom, mau, certo, errado, moral, imoral, etc. Segue abaixo alguns exemplos de sentenças éticas:

A- Abortar é moralmente errado;

B- As pessoas não devem roubar;

C- A humildade é uma virtude;

Em contrapartida, uma proposição não-ética necessita ser uma sentença que não serve para uma avaliação moral. Alguns exemplos são:

D- João é uma pessoa alta;

E- As pessoas se movimentam nas ruas;

F- Joaquim é o chefe;

Notem que ao consideramos as expressões não-éticas (D;E;F), estamos, na realidade, expressando crenças sobre o mundo. Em suma, estamos descrevendo-o. Agora consideremos as proposições morais (A;B;C). Elas expressam uma crença sobre o mundo? Elas são verdadeiras ou falsas? Em função das perguntas levantadas, as respostas se distinguem radicalmente de acordo com a visão metaética adotada.

Cognitivismo: é a visão de que declarações morais são "truth-apt", isto é, variam de acordo com o contexto e podem ser tanto uma proposição verdadeira quanto falsa. Dito isso, os exemplos anteriores, quando colocados nessa perspectiva, nos mostram que as declarações éticas e não-éticas possuem o mesmo status. No geral, A não é fundamentalmente diferente de D. Apenas se está expressando uma crença sobre aborto, o qual possui a propriedade de ser errado (wrongness property).

Não-Cognitivismo: ao contrário do cognitivismo, esta visão nega que declarações morais sejam "truth-apt", isto é, nega que variem de acordo com o contexto ou que possuem valor alético. Basicamente, tem-se que as declarações morais não expressam proposição alguma e que, portanto, não podem ser verdadeiras ou falsas. Nesse contexto, A seria errado apenas por conta de uma expressão emocional de desaprovação do aborto. Em resumo, tratam-se apenas de expressões emocionais sobre declarações morais.

TEORIAS METAÉTICAS

Em função da definição do cognitivismo e não-cognitivismo, observemos abaixo um esquema das teorias mais recorrentes da ética:


Após analisarmos o diagrama com cuidado, vamos às explicações:

TEORIAS COGNITIVISTAS

Teoria Moral do Erro: Basicamente, ela nos diz que todas as declarações morais são falsas. A título de exemplo, quando eu me proponho a dizer que abortar é errado eu estou, na realidade, descrevendo uma característica objetiva do mundo. Em suma, eu estou dizendo que o aborto tem a propriedade objetiva de ser errado (wrongness property). Todavia, não existem características: nada tem a propriedade de ser certo, errado, bom ou mau. Valores morais simplesmente não existem. Dito isso, a teoria do erro, assim como qualquer outra teoria subjetivista, deve defender duas asserções:

1- Deverá mostrar que declarações morais devem ser tomadas em face dos valores;

2- Deverá mostrar que possuímos boas razões para acreditar que valores morais objetivos não existem;

 Antirrealismo Moral

Em tese, a posição realista nos diz que as declarações morais são dependentes da mente humana. Em outras palavras, o antirrealismo é a negação de que propriedades morais existam independentemente da mente humana. Nesse sentido, as propriedades morais estão sujeitas à opiniões, gostos ou preferências pessoais, sejam elas individuais ou coletivas.

Subjetivismo Moral Individual: A referida teoria nos diz que declarações morais são tomadas como verdadeiras ou falsas pelas atitudes dos indivíduos que as pronunciam. Nesse sentido, quando eu digo que abortar é errado, eu não estou dizendo nada além de "eu desaprovo o aborto". Em suma, a verdade ou falsidade de uma declaração é relativa ao indivíduo. Abortar é errado para mim, que desaprovo, porém, certo para você, que aprova.

Subjetivismo Moral Cultural: Em síntese, declarações morais são feitas verdadeiras ou falsas de acordo com a cultura como um todo. Em sociedades que desaprovam o aborto, a declaração "aborto é errado" é verdadeira, ao passo que em sociedades que aprovam o abordo a referida declaração é falsa.

Nota: é importante não confundir as visões acima com o relativismo descritivo.

Teoria do Observador Ideal: Declarações morais são dependentes de sentimentos e impulsos imparciais. Nesse sentido, os juízos morais não descrevem os nossos sentimentos atuais e impulsos momentâneos, nem aquilo de que num ou noutro momento gostamos. Em contrapartida, os juízos morais descrevem como nos sentiríamos se fôssemos inteiramente racionais. Ao afirmarmos que “X é um bem” significa, na verdade, que “desejaríamos X se fôssemos imparciais e estivéssemos completamente informados.” Em suma, trata-se de uma posição imparcial para se emitir juízos de valor. A referida teoria subjetivista já não se encontra em voga devido à dificuldade de se definir o que significa ser imparcial, bem como responder a questões como: "devemos seguir o que cada um de nós individualmente desejaria se fôssemos observadores ideais?"; "será que devemos considerar um “bem” o que a “maioria” dos observadores desejaria?"; "Como é que se decide (e quem decide) que condições de racionalidade incluir?".

Realismo moral

Algumas declarações morais são verdadeiras independentemente da mente humana (gostos ou opiniões pessoais, por exemplo). Nesse sentido, se um realista moral acredita que o aborto é moralmente errado, ele quer dizer que, mesmo que todos no mundo concordem que abortar é moralmente correto, o aborto ainda seria moralmente errado, pois independe da mente humana. Em suma, o aborto possui a propriedade mental-independente de ser errado (wrongness property). Para um realista, os valores morais são características do mundo não menos reais que a lei da gravidade ou a solidez dos objetos. Em suma, as declarações morais possuem valor alético, isto é, valor de verdade.

Moral naturalista vs Moral não-naturalista

Em função deste embate, a primeira coisa que devemos nos perguntar é: o que é uma propriedade natural? Uma aproximação seria: propriedades naturais são as propriedades que se encaixam em uma descrição científica do mundo, isto é, que podem ser conhecidas mediante estudos empíricos. O prazer, a título de exemplo, é uma propriedade natural. Nesse sentido, quaisquer teorias éticas hedonistas são, portanto, pertencentes à moral naturalista. Resumindo as posições:

Moral naturalista

A referida visão afirma que propriedades morais são propriedades naturais. Nesse sentido, as referidas propriedades passam a ser objetos de estudo da ciência (empirismo). Alguns filósofos e cientistas suportam essa ideia, como Sam Harris, Richard Dawkins e Daniel Dennett. Basicamente, a ética é reduzida à ciência natural. Segue abaixo, algumas teorias afins:

Deontologia Kantiana: Trata-se de uma teoria normativa da ética que se baseia em obrigações. Nesse sentido, as escolhas são moralmente necessárias, proibidas ou permitidas, portanto, inclui-se entre as teorias morais que orientam nossas escolhas sobre o que deve ser feito. Seu fundamento ontológico encontra-se na razão (concebida em termos naturais), que, por sua vez, emite os comandos na forma do imperativo categórico kantiano. Tal sustento faz da teoria ética de Kant uma teoria cognitivista, realista e naturalista.

Virtude Aristotélica (ética das virtudes): Aristóteles, em sua ética, procura mostrar que o fim último do homem é a felicidade, o que faz da referida teoria uma tese eudemonista.

Consequencialismo & Utilitarismo: Ambas são teorias da ética normativa, com aplicações em semântica moral (definindo-se o bem como a felicidade ou o prazer), que se pautam na consequência das ações. Basicamente, estamos falando de sistemas ético-normativos através dos quais podemos entender o que é moralmente correto e incorreto simplesmente em função de seus fins. Embora as duas visões tenham como foco a consequência das ações, o utilitarismo, doutrina esta teorizada pelo filósofo inglês John Stuart Mill, no século XIX, difere do consequencialismo no sentido de que a atitude mais correta seria a que resulta no maior bem-estar ou prazer para o máximo de pessoas (hedonismo), ao passo que o primeiro se sustenta na premissa eudemonística de que é a felicidade quem possui valor intrínseco. Nota-se, portanto, que seus fundamentos metafísicos são, em termos de propriedades morais, puramente naturais.

Moral não-naturalista

A dita corrente nega que propriedades morais sejam propriedades naturais. Em suma, tem-se que as propriedades morais são irredutíveis à natureza. As propriedades morais, nesse sentido, não são necessariamente sobrenaturais, mas podem ser, segundo Moore, indefiníveis. Segue abaixo, algumas teorias não-naturalistas:

Intuicionismo: Trata-se de uma teoria ética epistemológica, e, em algumas definições, metafísica, que afirma que o nosso senso intuitivo são os fundamentos de todo o conhecimento ético. Nesse sentido, as verdades morais podem ser conhecidas de forma não inferencial, isto é, conhecê-las sem a necessidade de inferi-las a partir de outras verdades ou crenças. Pelo fato de se aceitar verdades morais e pelo fato de a intuição não ser natural, o intuicionismo é, necessariamente, uma teoria cognitivista, realista e não-naturalista.

Teoria Moderna do Comando Divino: Trata-se de uma teoria ética que fundamenta os deveres morais em Deus. Em outras palavras, nossas obrigações morais surgem como comandos emitidos por uma autoridade competente, onipotente, onisciente e benevolente a quem chamamos de Deus. Deste modo, tem-se um fundamento objetivo para os deveres morais. Tais comandos podem ser emitidos através dos mandamentos, a título de exemplo. Não obstante, Deus, por ser, nas palavras de Santo Anselmo, o maior ser logicamente concebível, não pode emitir comandos contrários a sua natureza perfeita. Justamente por isso, os comandos emitidos por Deus devem sempre ser bons. Existe, atualmente, uma ampla defesa dessa teoria por filósofos como William Lane Craig, Phillip Quinn, Alvin Plantinga, Michael Austin, J. P. Moreland e outros.

TEORIAS NÃO-COGNITIVISTAS

Emotivismo: É a visão de que declarações morais expressam meramente atitudes emocionais. A declaração "aborto é moralmente errado" significa, em termos de onomatopeia, uma sonora vaia. É extremamente importante não confundir uma tese não-cognitivista, como o emotivismo, com uma tese cognitivista, como o subjetivismo individual. De acordo com o subjetivismo individual, quando eu faço uma declaração moral, eu estou, na verdade, reportando o meu ponto de vista moral. Portanto, pode ser tanto verdadeiro como falso. Já de acordo com o emotivismo, declarações morais não reportam coisa alguma. Tratam-se apenas de expressões emocionais. Quando um indivíduo que odeia salame vai a um restaurante e o garçom lhe serve um prato cheio de salames, naturalmente a reação do sujeito seria algo parecido com: "- Urgh! Nojento!". Notem que ele está simplesmente expressando uma reação negativa sobre o salame, portanto, sua elocução não pode ser verdadeira ou falsa.

Prescritivismo: É a visão que declarações morais expressam comandos. Nesse sentido, a sentença "abortar é moralmente errado" quer dizer, na verdade, "não aborte".

Quasi-Realismo: Começa com a observação de que nós, muitas vezes, tendemos a agir como se nossas declarações morais fossem verdadeiras ou falsas. Portanto, o Quasi-Realismo é a tentativa de justificar essa prática. Embora, nesse contexto, as declarações morais não possam ser verdadeiras ou falsas, é perfeitamente racional, de acordo com a referida visão, agir como se fossem.

Expressivismo: Trata-se de uma teoria metaética que se concentra no significado da linguagem moral. De acordo com a referida visão, sentenças morais como "é moralmente errado abortar" não são descritivas ou fatídicas, e tampouco denotam termos como "bom", "mau", "certo" ou "errado". Suas funções primárias são traduzidas em expressar uma atitude valorativa em relação a um objeto de avaliação. Justamente pelo fato de as sentenças morais não serem descritivas, elas não podem exprimir verdade ou falsidade. Em síntese, tratam-se apenas de aprovações e desaprovações.

Nota: é possível misturar e combinar algumas visões não-cognitivistas. A título de exemplo, é possível ser simultaneamente um emotivista e um prescritivista, de modo que ambas as visões não são explicitamente contraditórias.

TEORIAS SUBSTANCIAIS

Niilismo moral: É a visão metaética que afirma que nada é intrinsecamente moral ou imoral. A título de exemplo, um niilista diria que matar alguém, por qualquer razão que seja, não é, de forma inerente, moralmente certo ou errado. Niilistas morais consideram a moralidade como um complexo constructo sociocultural que pode oferecer algumas vantagens psicológicas, sociais ou econômicas, mas que não possui valor algum. Em síntese, o niilismo moral sustenta que nada é moralmente bom ou ruim, certo ou errado. Não possui fundamento algum, pois não há o que fundamentar.

Ceticismo Moral: A referida categoria teórica da Metaética sustenta que não há conhecimento moral. Na realidade, trata-se de um conjunto de visões que nega ou põe sob suspeita a razão no que concerne à moralidade.

A LEI DE HUME

Em metaética, a lei de Hume, também conhecida como guilhotina de Hume, ou ainda, o problema do "ser - dever ser" foi articulado pelo filósofo escocês David Hume, que notou que muitos escritores faziam afirmações sobre o que deve ser com base em afirmações sobre o que é. Hume estabeleceu a ideia de que existe uma diferença significativa entre afirmações descritivas e afirmações prescritivas (normativas), e de não ser óbvio como derivar as últimas das primeiras. A título de exemplo, nos podemos raciocinar a partir de uma premissa descritiva para uma conclusão descritiva. Segue abaixo o exemplo:

P1 - Todos os homens são mortais;

P2 - Sócrates é um homem;

C- Portanto, Sócrates é mortal;

Notem que, nesse contexto, P1, P2 e C são descritivas. Logo, são perfeitamente válidas. Similarmente, é possível raciocinar a partir de premissas normativas para conclusões normativas. Segue abaixo o exemplo:

P1 - Você não deve assassinar humanos;

P2 - José é Humano;

C- Portanto, você não deve assassinar José;

Notem que P1 e C são premissas normativas, e, portanto, o raciocínio é logicamente válido. Todavia, quando partimos de uma premissa puramente descritiva para uma conclusão normativa, somos guilhotinados por Hume. Segue abaixo um exemplo:

P1 - Humanos sentem dor se você feri-los;

P2 - Paulo é humano;

C - Portanto, você não deve ferir Paulo;

Notem que C não segue de P1, o que, conclusivamente, invalida o raciocínio. Nós poderíamos tentar adicionar mais premissas descritivas, mas a conclusão ainda assim não seguiria:

P1 - Humanos sentem dor se você feri-los;

P2 - Paulo é humano;

P3 - Dor é uma forma de sofrimento;

C - Portanto, você não deve ferir Paulo;

Podemos tentar adicionar mais uma premissa, mas ainda assim, o raciocínio segue inconclusivo:

P1 - Humanos sentem dor se você feri-los;

P2 - Paulo é humano;

P3 - Dor é uma forma de sofrimento;

P4 - Paulo não quer sofrer;

C - Portanto, você não deve ferir Paulo;

Novamente, nos é evidente que C não segue de P1 em nenhum dos exemplos em questão. Dito isso, não importa quantos fatos em forma de premissa são inseridos no silogismo, ele ainda será inválido. A única maneira de derivar a conclusão normativa das premissas acima seria, portanto, adicionando uma declaração normativa às premissas, tal como: "Você não deve infligir dor em humanos".

A DISTINÇÃO FATO/VALOR

A distinção fato/valor, enquanto conceito, afirma que existe uma lacuna metafísica fundamental entre fato e valor. A fins argumentativos, consideremos um desacordo ético sobre o aborto. Um indivíduo diz que a referida prática é sempre moralmente errada, ao passo que o outro diz que é sempre moralmente correta. O desacordo deve repousar em fatos: o pró-vida diz que o feto possui funções cerebrais ativas, já o pró escolha diz que é permissível, pois o feto não possui funções cerebrais ativas. Nesse caso, o desacordo concerne aos fatos e ambas as partes estão erradas. Nós poderíamos utilizar a ciência para provar que ambos estão errados, seja demonstrando que fetos possuem funções cerebrais ativas ou não.

Todavia, ao elevarmos o desacordo ao nível dos valores, tudo muda. O indivíduo pró-escolha poderia sustentar que a autonomia da mulher sobre seu corpo supera todas as outras considerações, enquanto o pró-vida poderia sustentar que o feto possui direito à vida e que, portanto, este supera todas as outras considerações. A questão é que esses valores parecem ser muito diferentes dos fatos. Em suma, no primeiro exemplo, o desacordo era sobre fatos (o que é), ao passo que no exemplo recente, o desacordo era sobre valores (o que deveria ser). No último, a ciência nada pode fazer para demonstrar quem está com a razão, o que nos leva novamente a discussão sobre os fundamentos dos valores morais (metaética) e suas teorias. O que torna uma ação moral e objetivamente válida? Há fatos morais? Quais são os fundamentos dos valores morais? Seja lá quais forem as respostas, essas, certamente, são as questões mais fundamentais da ética.

Referências Bibliográficas:

[1] Moral Anti-Realism; Stanford Encyclopedia of Philosophy (http://plato.stanford.edu/entries/moral-anti-realism/#ChaMorAntRea);

[2] Divine Command Theory; Internet Encyclopedia of Philosophy (http://www.iep.utm.edu/divine-c/);

[3] A Systematic Introduction to Normative Ethics and Meta-ethics. New York: Macmillan. p. 215. LOC card number 67-18887;

[4] O Dilema Moral do Ateísmo; SANTOS, Andrei; 2015 (http://razaoemquestao.blogspot.com.br/2013/11/o-dilema-moral-do-ateismo.html);

[5] Hurley, S.L. (1989). Natural Reasons: Personality and Polity. Oxford: Oxford University Press;

[6] KANT, Immanuel - A crítica da razão prática, 1788;

[7] CRAIG, William Lane - Em guarda; 2011;

[8] http://www.reasonablefaith.org (diagrama 1). fig;

[9] R.M. Hare - The Language of Morals; 1952;

[10] SANTOS, Andrei - (Diagrama 2). fig;

[11] KANT, Immanuel - Groundwork of the Metaphysics of Morals, 1785;

[12] http://criticanarede.com/fil_relatcultural.html

[13] http://criticanarede.com/fil_objectietica.html

[14] http://criticanarede.com/subjvalores.html

[15] Martins, Gilberto de Andrade. Reflexões filosóficas e epistemológicas (2007), Hume's Guilhotine;

[16] Imagem de capa: http://www.ethicsineducation.co.uk (https://irp-cdn.multiscreensite.com/42c8fb1c/dms3rep/multi/ethics_3-1688x722.jpg);

[17] Plato's Moral Realism: The Discovery of the Presuppositions of Ethics, by John M. Rist (Jul 15, 2012);

[18] Moral Cognitivism vs. Non-Cognitivism". Stanford Encyclopedia of Philosophy;

[19] Internet Encyclopedia of Philosophy "Ethics";

[20]  Mill, John Stuart (1998). Utilitarianism. Oxford: Oxford University Press;

[21] NIETZSCHE, Friedrich - A genealogia da moral, 1887;

[22] http://plato.stanford.edu/entries/skepticism-moral/;

[23] Mackie, J. L. (1977). Ethics: Inventing Right and Wrong, Penguin;

[24] Shafer-Landau, Russ & Terence Cuneo (eds.) (2007). Foundations of Ethics, Blackwell Publishing Ltd;

[25] Hume, David (1739). A Treatise of Human Nature. London: John Noon;

Andrei S. Santos

Graduando em Antropologia pela Universidade Federal Fluminense


A Pedagogia do Fim: uma análise crítica da morte à luz da perspectiva infanto-juvenil

É um fato quase incontestável que a morte exerce sobre nós um poder que resulta em um complexo emaranhado de emoções e sentimentos. Todavia, mesmo que a iminência do fim esteja, de algum modo, presente em nosso cotidiano, o tema da morte continua a ser um tabu. Do mesmo modo, ainda que diversas reflexões sobre o tema tenham surgido – em especial abundância a partir da década de sessenta (OIGMAN, 2007) – há um incômodo silêncio por parte dos historiadores, sociólogos e antropólogos. De modo análogo, e talvez ainda mais grave, a pauta da morte, quando levada às crianças, revela um silêncio ainda mais incômodo. Segundo José Carlos Rodrigues em “O tabu da morte”, a referida quietação se deve a fatores como a ocultação da morte e a exclusão de quem está morrendo em função da iminência do aniquilamento. Os referidos elementos, portanto, tornam-se partes fundamentais de uma superestrutura cômoda e controversa (RODRIGUES, 2006, p. 67).

Um outro elemento que julgo ser fundamental – e talvez a espinha dorsal desta superestrutura na qual estamos inseridos – foi majestosamente analisado pelo filósofo e escritor existencialista Jean-Paul Sartre, o qual havia percebido que a morte não nos soa ameaçadora desde que a vejamos como a morte do outro, ou seja, do ponto de vista da terceira pessoa. Segundo o autor, é somente quando a internalizamos e a observamos da perspectiva da primeira pessoa – “minha morte”; “eu vou morrer” – que a ameaça do não ser torna-se, então, real (SARTRE, 1943, p. 192). Nos é evidente, portanto, que nossa verdadeira condição existencial somente pode ser contemplada na perspectiva da primeira pessoa. Deste modo, estamos aptos a analisar a morte à luz de uma relação de causa e efeito na qual estamos inseridos.

Embora haja uma incrível diversidade de cosmovisões e filosofias acerca de nossa condição existencial, bem como drásticas mudanças ao longo da história no que concerne às relações socioculturais do ser humano com a morte – tais como práticas e ritos funerários – há um parâmetro objetivo pelo qual podemos pautar nossa análise. Segundo Rodrigues, por toda a parte, a morte é entendida como um “deslocamento do princípio vital". Ainda que o luto seja subjetivo, tal como o sentimento de perda, ainda há a presença do elemento trágico cujo signo máximo e indissociável é a morte. Dito isso, em decorrência da experiência da tragédia, o silêncio sobre a morte em uma sociedade em que a mesma é uma realidade recorrente, é inevitavelmente preenchido por um barulho ensurdecedor (RODRIGUES, 2006, P. 39).

As percepções que os seres humanos desenvolveram em torno da ideia de morte sofreram grandes mudanças ao longo da história. Em alguns períodos da Idade Média, a título de exemplo, a aceitação da morte era um fenômeno comum, recorrente e causador de um sofrimento suportável, haja vista que a ela não era considerada uma ruptura entre o mundo natural e o além. Já no século XV, há um tímido esboço de um sentimento de individualidade, o qual questiona os conceitos de imortalidade humana e a salvação. Todavia, é no século XX que a morte sofre uma transformação drástica, na qual é despida de quaisquer predicados ontológicos, passando a “não mais ser”, ou ainda, a traduzir a passagem da existência à não-existência. Do mesmo modo, a morte ganha contornos contemporâneos, empregando-se um esforço para ocultá-la da vida cotidiana, atribuindo-lhe um tratamento indiferente. Não obstante, surge ainda um sentimento de proteção dos entes próximos da morte, bem como das pressões emocionais decorrentes dela. Aqui tem-se, portanto, o desenvolvimento de uma nova escatologia (OIGMAN, 2007).

Em função dessa recente forma de se abordar a morte, de que maneira poder-se-ia instigar uma reflexão em crianças sobre um tema cuja atmosfera que o circunda mostra-se extremamente delicada? Visando fornecer uma resposta à questão, deve-se considerar, à priori, que três elementos são indispensáveis para se obter êxito na tarefa: a desconstrução da atmosfera de restrição por meio do encorajamento; a adição de uma ferramenta atrativa e interativa que permita aos jovens assimilar ideias por meio da experiência pessoal relacionada à morte e, por fim, a observância do respeito e a preservação da cosmovisão a qual os jovens estão submersos. Em primeiro plano, a desconstrução da atmosfera de restrição – a qual funciona como uma barreira epistêmica que impede o conhecimento, por parte dos jovens, das várias facetas e perspectivas da morte – é absolutamente necessária, e o melhor meio para se fazê-lo seria por meio do encorajamento. À luz da proposta, algumas ferramentas, com o auxílio da tecnologia, se mostram de grande utilidade ao cumprimento da tarefa: a imagética por meio de redes sociais, nas quais podem ser trabalhados conteúdos infantis de destaque, tais como desenhos animados e personagens famosos que instiguem o debate sobre a morte; o compartilhamento de relatos e experiências pessoais relacionados ao tema, igualmente por meios cibernéticos, e a elaboração de jogos eletrônicos, maneira esta que se mostra eficaz e abrangente, além de ser, à luz da proposta, a principal ferramenta para a abordagem da morte no cenário infanto-juvenil.

Em tempo, o objeto central de nossa abordagem à morte deve ser, logo em seguida ao primeiro plano, posto em prática. Tendo em vista que, atualmente, de acordo com o censo do Pesquisa Game Brasil 2015, o mercado de jogos alcança ao menos 82% dos usuários de celulares no país, a melhor ferramenta para atrair as crianças e os jovens são, conclusivamente, os jogos eletrônicos. Com base nas referidas tendências, propõe-se elaborar um jogo em plataforma RPG (Role-playing game) – cuja tradução livre é “jogo de interpretação de papéis” – onde o personagem interpretado encara diversos desafios voltados à morte, em determinados cenários e períodos históricos, nas perspectivas mitológicas grega, romana e cristã, sendo esta última igualmente trabalhada à luz da mitologia. Em função do método adotado, é possível ao jovem submergir na história humana de modo atrativo, ao passo que lhe é concebível ainda interagir e assimilar ideias com base em sua própria experiência pessoal relacionada à morte.

No cenário virtual, em função do desenrolar da história, será possível ao jogador, além de assimilar experiências e conceitos, conhecer mais sobre a visão de morte de alguns períodos culturais da história humana, observando-se as nuances da cultura grega, romana e cristã, bem como a forma como cada uma delas lidava com a morte. Dessa maneira, é possível romper, efetivamente, a barreira epistêmica que limita a noção de morte de uma criança a sua própria experiência pessoal e a separa de todo um inventário de perspectivas acerca do referido conceito. A partir dos elementos constatados pelo jogador ao longo da saga, será possível ao mesmo abstrair e comparar entre si cada aspecto encontrado no jogo e, do mesmo modo, leva-lo a desenvolver uma noção de alteridade com sua própria visão de morte. Em seguimento, a interpretação do papel do protagonista no jogo fará com que o pensamento crítico, à luz da ideia de morte, seja instigado e, deste modo, a reflexão surgirá naturalmente como um processo criativo da cognição humana.

Essa mudança de perspectiva identitária do jogador para o personagem em si é extremamente importante na medida em que Sartre, ao início da análise, nos aponta a importância de se contemplar a morte na primeira pessoa. A opção pelo estilo de plataforma role-playing game se dá justamente pela possibilidade de, não apenas jogar com o personagem, mas de, efetivamente, “sê-lo”, haja vista que o referido estilo de jogo permite que os jovens assumam o papel dos personagens e participem ativamente de suas narrativas. Ainda assim, é permissível aos mesmos improvisar livremente durante todo o processo. Deste modo, as escolhas dos jogadores determinam o rumo que o jogo irá tomar. Com base nessa abordagem peculiar, é possível ao jovem desfocar a forma contemporânea de pensar a morte e observá-la a partir de outras perspectivas, atentando-se às experiências, sensações e relações próprias em conflito com as experiências adquiridas durante a interpretação do personagem.

Tendo em vista que o parâmetro para a reflexão sobre a morte parte da experiência pessoal e da assimilação do próprio jogador, em detrimento da experiência virtualmente adquirida, o obstáculo da interferência angular – o qual consiste na preservação da cosmovisão dos jovens em função de possíveis conflitos de ordem filosófica – é habilmente superado, de modo que as inferências e assimilações por parte do indivíduo submerso no jogo partirão de seu próprio olhar sobre a morte, em função de sua cultura e cosmovisão. Dessa maneira, preserva-se a autonomia do pensamento, bem o respeito aos diversos modos de se pensar o mundo. Em conclusão, observando-se o cumprimento dos três elementos imprescindíveis citados no decorrer da análise, é possível cumprir, com êxito, a tarefa de instigar os jovens à introspecção e, consequentemente, submergi-los em um debate profundo sobre a morte, de modo a coloca-los frente-a-frente com um tema tão restrito em nossa sociedade.

Observação¹: faz-se necessário clarificar que o emprego do método RPG não se limita ao campo virtual, de maneira que é possível aplicá-lo de forma mais didática e adequada às salas de aula. Um jogo típico costuma unir os seus participantes, já com personagens e papéis pré-estabelecidos, em um único grupo que se aventura em uma determinada narrativa histórica. Em decorrência da dinâmica oferecida pelo estilo de jogo, observando-se a narrativa em questão, o mesmo costuma ser notavelmente mais colaborativo e social do que competitivo, diferindo-o de outros estilos de jogo. 

Observação²: este artigo é parte constituinte (elaborada por mim) de um trabalho em grupo realizado em função da disciplina Mortes e Funerais na Antiguidade, que fora cursada no departamento de História da Universidade Federal Fluminense.

Referências Bibliográficas: 

[1] TABU DA MORTE. Rodrigues JC. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2006. 

[2] SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada: ensaio de ontologia fenomenológica. Tradução de Paulo Perdigão. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 1997. 

[3] PESQUISA GAME BRASIL 2015 (http://www.pesquisagamebrasil.com.br/#!pesquisa-2015/x5k3i) 

[4] OIGMAN, Gabriela. TABU DA MORTE. Cad. Saúde Pública vol.23 no.9 Rio de Janeiro Sept. 2007.

[5] Link da imagem original: http://s2.glbimg.com/8y3oAAOOqg82lqNTkS7X0PKRQqXyLuSuZEckzAPDUAaN17bn1K_pwAxkJp6kTQ31/e.glbimg.com/og/ed/f/original/2013/04/19/transtorno.jpg
Andrei S. Santos

Graduando em Antropologia pela Universidade Federal Fluminense

O Absurdo da Vida e o Suicídio: uma introdução ao pessimismo e seus desdobramentos no absurdismo, existencialismo e niilismo

"Existe apenas um único problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida significa responder à questão fundamental da filosofia."

Albert Camus

É com essa célebre frase, proferida por um dos maiores filósofos do absurdismo, que damos início ao diálogo sobre o absurdo da vida e o suicídio. Ao longo de toda a história humana, o homem procurou incansavelmente um sentido para a vida. Diversos questionamentos vêm à tona diante da plenitude da existência: se a morte está em pé com os braços abertos ao final da trilha da vida, qual é o objetivo da vida? Que significado supremo pode nos ser dado? Que importância real tem a nossa existência? Por que eu estou aqui? Quem sou eu? Para a filosofia, "O Absurdo" se refere ao conflito entre a tendência humana de buscar significado inerente à vida e a inabilidade humana para encontrar algum significado. Nesse contexto, "absurdo" não significa "logicamente impossível", mas "humanamente impossível". Em suma, trata-se da impossibilidade de alcançarmos um sentido para a vida. O universo e a mente humana não causam separadamente o Absurdo, mas este surge pela natureza contraditória de ambos existindo simultaneamente.

Somente através de um olhar puramente naturalista é possível compreender a inerente desgraça da condição humana. Nesse cenário, a fragilidade humana é contemplada no mais alto grau quando nos damos conta que não temos a resposta para uma simples questão: por que existimos? Ao meditarmos sobre a natureza e analisarmos friamente a nossa condição existencial, nos percebemos em um pesadelo sem igual: se é o universo o responsável pela nossa existência, eu e você somos um subproduto acidental da natureza, resultado de uma soma de matéria, tempo e acaso. Não há razão alguma para que existamos e tudo o que nos espera é a morte. Em nossas mentes, tínhamos que, ao expulsarmos Deus do plano da existência, também nos livraríamos de tudo aquilo que nos reprimia e coibia. Em vez disso, descobrimos da pior maneira que, ao matarmos Deus, também matamos a nós mesmos. Nas palavras de Nietzsche, como nós, assassinos de todos os assassinos, consolaremos a nós mesmos? Logo, as perguntas retornam a nós: que significado supremo pode nos ser dado? Que importância real tem a nossa existência? Por que eu estou aqui? Quem sou eu? A verdade é que não faz nenhuma diferença.

Não há nada que possa preencher o vazio que é a nossa vida. Nós somos, portanto, desafiados a aceitar que não somos mais que um recipiente descartável. Acima de tudo, somos como prisioneiros condenados à morte, aguardando nossa execução inevitável. No romance A máquina do tempo, do escritor inglês H. G. Wells, a gravidade de nossa condição existencial fica, mais uma vez, em evidência. O viajante do tempo criado por Wells segue rumo ao futuro distante para descobrir o destino do homem. No entanto, tudo que encontra é uma terra morta, exceto por alguns liquens e musgos, orbitando em torno de um gigantesco sol vermelho. Os únicos sons que ecoam são o do vento soprando e a gentil ondulação do mar. O mundo estava em silêncio. Todos os sons produzidos pelo homem, o balido das ovelhas, o trilado das aves, o zumbido dos insetos, a agitação das cidades que compõe o cenário de nossa vida, tudo isso havia deixado de existir para sempre. E, assim, o viajante do tempo de Wells retornou. Mas voltou para onde? Bem, para um mero ponto anterior à corrida despropositada rumo ao esquecimento. Esse é o cenário inevitável e perturbador que enfrentamos. Alguns existencialistas, como Sartre, defendem a construção subjetiva de valores para suportarmos o absurdo da vida. No entanto, por que deveríamos nos esconder em um castelo de ilusões se estamos em busca da verdade?

Aparentemente, não há como fugir. A humanidade é uma espécie condenada à destruição num universo em um processo lento e doloroso de morte. Uma vez que a humanidade deixará finalmente de existir junto a tudo aquilo que criou, não faz nenhuma diferença se ela algum dia realmente existiu. A humanidade é, portanto, não mais importante do que um enxame de mosquitos ou uma manada de porcos, pois o fim de todos eles é o mesmo. Esse mesmo processo cósmico cego que nos lançou à existência, no final, nos engolirá de novo totalmente. Logo, a pessoa a quem chamamos de “eu” deixará de existir, não será mais. Nesse cenário, um único ser humano ou mesmo toda a espécie humana é insignificante, sem propósito e irrisória a ponto de não mudar em nada a totalidade da existência. Dada esta circunstância, a própria existência e seus efeitos (toda a ação, sofrimento e sentimento) é, em última instância, sem sentido e vazia. Albert Camus, a título de exemplo, foi um dos poucos que abordou corajosamente o que ele considera ser a causa maior existencialista: será que a realização da plenitude e absurdo da vida exigem suicídio? À luz das questões éticas, devemos nos ater não àquilo que os homens estão fazendo, mas, sim ao que devem fazer. Dito isso, a questão que nos importa não é o porquê de os homens se suicidarem, mas se devem ou não fazê-lo.

O suicídio, diz Sartre, é errado porque é um ato de liberdade que destrói todos os atos futuros de liberdade. É uma afirmação do ser mediante a qual a pessoa finalmente nega seu ser. É, pois, um ato próprio que traduz-se em uma tentativa de renegar-se; é a escolha que elimina todas as escolhas. O suicídio é baseado no desejo do homem de ser aliviado do tipo de existência que tem. Conforme disse Santo Agostinho, o suicídio é um fracasso da coragem, é o "escapismo" existencial. Do mesmo modo, Flusser, filósofo tcheco naturalizado brasileiro, ressalta que o suicídio é, portanto, uma espécie de metafísica, uma espécie de truque teológico que consiste em uma tentativa desonesta e covarde de escapar do absurdo. Albert Camus, por sua vez, nos diz que é preciso continuar vivendo e convivendo com o nojo e a náusea, dia após dia, momento após momento, para viver o mais possível, já que não se pode viver o melhor possível. Somente assim, devorando quantidade em vez de qualidade, é possível encarar honestamente o absurdo da vida.

Ora, se todos os nossos sonhos e esperanças repousam no nada e somos meros acidentes do acaso, empurrados na existência sem razão alguma, que motivos temos parar continuar a viver? Se todos nós não passamos de um bocado de lodo que evoluiu racionalmente; se somos um aborto da natureza, lançados num universo despropositado para viver uma vida sem propósito, mas repleta de dor e sofrimento por que não nos libertarmos? A conclusão, mais uma vez, nos desafia: se o verdadeiro fim natural da ação humana não é a satisfação do prazer, mas a exclusão da dor, morrer é libertar-se. Se nós somos, de fato, seres racionais, não seria apropriado evitarmos toda a dor e sofrimento? Não seria sensato adiantar um resultado final já estabelecido? Afinal, mais irracional do que lutar contra uma vida absurda, é vivê-la. O filósofo alemão Philipp Mainländer, consciente que a vida não possui valor, nos indaga: seria o não-ser melhor que o ser?

Se há na vida a supremacia do mal sobre o bem, sendo o mal a privação dos meios de conservação da vida (alimentação, abrigo, etc) e a guerra de dores entre seres humanos, a balança tende ao não-ser? Segundo Schopenhauer, a pior coisa que pode acontecer a alguém é nascer. Afinal, vida é, em grande parte, sofrimento: você sofre perdas, se decepciona e adoece. Ora, se a vida fora despedaçada pela indiferença de um universo sem sentido e a dor consome o que resta dela, aparentemente, só nos resta uma saída, a qual Schopenhauer nos conduz: a esperança de salvação para o homem somente pode ser encontrada na renúncia ao mundo e a todas as suas solicitações, na mortificação dos instintos, na auto-anulação da vontade e na fuga para o nada. Percebam que, de uma forma ou de outra, o universo termina em nada. E, uma vez que ele termina em nada, o homem não é nada. Desta forma, a unidade do mundo se apresenta na escolha do ser primordial de nada ser. Aniquilar-se completamente. Desistir de ser.

Não há, no universo, razão alguma para acreditarmos que nós, seres humanos, sejamos objetivamente mais valiosos do que ratos. Se não há, em nós, algo como uma alma; se mente e cérebro são a mesmíssima coisa, tudo quanto pensamos e fazemos é determinado pela percepção dos nossos sentidos e pela nossa estrutura genética. Não há livre-arbítrio. Sem liberdade, nenhuma de nossas escolhas realmente importa. São como os gestos espasmódicos dos membros de uma marionete, controlada pelos cordões da percepção sensorial e da constituição física. E que valor tem uma marionete e seus movimentos? Nós, habitantes do vazio, somos reles seres mecânicos - porém sensíveis - fadados à dor e ao sofrimento. Algumas vezes, ocorre em nós surtos ilusórios de moralidade - como um desejo desesperado de emergir à superfície dos valores em busca de sentido - mas que logo desaparecem no ar. Novamente submersos no abismo absoluto, somos obrigados a conviver com os fatos nus e sem valor da existência.

A angústia de nossa existência alcança o apogeu quando nos percebemos no palco do universo estrelando o teatro do absurdo. Uma atuação mórbida, insignificante e cruel de marionetes presas a situações sem solução; forçadas a executar ações repetitivas ou sem sentido, com quadros não necessariamente conectados, que se alternam entre a comédia e a tragédia. Logo, o pano cai. É tudo. Isso é o homem: um ser absurdo. Não se pode escapar do ser, senão pela livre escolha de não mais ser. A redenção humana, portanto, passa a ser traduzida no objetivo de redimir-se de suas dores e angústias. Ao nos libertarmos da agonia de ser, abdicamos da pessoa a quem chamamos de “eu”, a qual deixará de existir, não será mais. Aqui jaz a porta de saída de um mundo de dores e pavores, onde a maior das dores é compreender o absurdo da vida.

Em conclusão, aparentemente, não há muitos motivos para que continuemos a suportar o absurdo da vida, de modo que os que há, são, no máximo, ilusões que ajudam a maquilar a cruel indiferença da dita realidade. Em contrapartida, há motivos razoáveis para que possamos nos libertar da dor e do sofrimento, bem como para adiantarmos um resultado inevitável. Todavia, se há a mínima hipótese da existência de um sentido ou propósito maior que nós, certamente, é nele que devemos nos segurar com todas as forças. Se há na vida algo maior que a mera sobrevivência, há motivos reais para a não aniquilação. Se há beleza no mundo, conforme Camus nos aponta, há pelo que viver, mesmo que não seja um sentido filosoficamente objetivo. Se há possibilidade da vida do homem não terminar na sepultura, há esperança. Se Deus de fato existe, ainda há, igualmente, objetivo. E se há objetivo, há sentido. Em contrapartida, conforme ressaltou Nietzsche, se Deus não existe, estamos condenados a não mais ser. Ironicamente, a esperança para nós, teístas ou ateus, está na existência de Deus. Todavia, enquanto o eterno debate sobre sua existência perdura, o fantasma da inexistência nos assombra. Uma última vez, deixemos que Camus resuma, brilhantemente, a nossa frágil condição em um mundo despropositado:

"A grande parte da nossa vida é construída sobre a esperança do amanhã, do amanhã que nos aproxima da morte, e é o último inimigo; pessoas vivem como se elas não tivessem a certeza da morte; uma vez despojado do romancismo comum, o mundo é um estranho e desumano lugar; o verdadeiro conhecimento é impossível de ser explicado pela racionalidade da ciência em favor do mundo: suas histórias, em última análise, no sentido de abstrações, se dão em metáforas. Desde que o momento absurdo é reconhecido, ele se torna a mais angustiante de todas as paixões."

Albert Camus

Referências Bibliográficas:

[01] Albert Camus - O Mito de Sísifo (1941)

[02] Albert Camus - O Estrangeiro (1942)

[03] Albert Camus - A Peste (1947)

[04] Jean-Paul Sartre - O Existencialismo é um Humanismo (1946)

[05] Jean-Paul Sartre - Entre Quatro Paredes (1944)

[06] Jean-Paul Sartre - A Náusea (1938)

[07] Nietzsche - A Genealogia da Moral (1887)

[08] Nietzsche - A Gaia Ciência (1882)

[09] Philipp Mainländer - A Filosofia da Redenção (1894)

[10] Schopenhauer - As Dores do Mundo (1850)

[11] Schopenhauer - O Mundo como Vontade e Representação (1819)

[12] Santo Agostinho de Hipona - De Civitate Dei (1483)

[13] Vilém Flusser - O Mito de Sísifo de Camus (2008 - Folha de S.Paulo)

[14] Imagem: freeitas.deviantart.com

Andrei S. Santos

Graduando em Antropologia pela Universidade Federal Fluminense

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